Trechos sublinhados

Guilhermo Arriaga

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Guilhermo Arriaga é um sujeito que me intriga. Ele é roteirista de cinema e escritor. Na primeira função, assinou Babel, Os três enterros de Melquiades Estrada, 21 gramas, todos filmes que adoro. Como autor, assinou Búfalo da Noite e Um Doce Aroma de Morte, livros que estão na minha próxima listinha de aquisições.

Com certo atraso, descobri uma entrevista dele no Youtube, que coloco abaixo. Entre tudo o que ele falou, destaco os conselhos que ele dá aos escritores iniciantes. Ele diz (na segunda parte da entrevista):

Todo escritor escreve. Parece muito bobo, mas há pessoas que se castram e tem medo de escrever. Termine o que está escrevendo. Não julgue seu trabalho, deixe que os outros o julguem. Há muitos escritores que tentam se comparar a Kafka, Faulkner, ou  Jorge Amado, Guimarães Rosa. Se você fizer assim, nunca vai conseguir. (…) Nunca procurem ser profundos. Vocês contam a história. Se forem profundos em si mesmos, a história será profunda. Não se pode ser profundo por decreto.

É um contraste com os conselhos dados por autores brasileiros. Já vi muitos comentários do tipo: você está fadado ao fracasso, desista enquanto há tempo, estão todos contra você. Falam como se escrever fosse uma dádiva suprema reservada aos autores renomados e seu clubinho de amigos – e não um prazer pessoal do autor em conseguir traduzir num parágrafo sua visão de mundo.

Não consigo identificar nesses conselhos o limite entre: seu uso como guardiões de um templo intocável e inacessível (a literatura) reservado apenas aos que possuem caneta de ouro; o narcisismo quase infinito de quem os profere; o conselho sincero de quem já levou muita porrada da crítica.

Enfim, aqui vai o Guilhermo.

Written by camila

June 25, 2009 at 3:22 pm

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O tempo de Ivana

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A Ivana Arruda Leite é uma das escritoras que mais me despertam curiosidade. Ainda não li nada dela, mas estou esperando seu novo romance, Hotel Novo Mundo, que está para ser lançado.

Embora não tenha lido seus livros, acompanho de perto seu blog, Doidivana. Sem dúvida, é um dos que mais me diverte.

No momento, observo com particular interesse a série “Azeitonas”, pequenos  posts sobre os bastidores da produção de HNM. No último, ela comenta que Ignácio Loyolla Brandão assinará a orelha de sua obra. E fecha o texto com uma frase que eu achei pra lá de comovente:

“Às vezes, a vida demora pra ficar bela.”

Não sei se posso dizer isso com propriedade, mas acho que entendo perfeitamente o que ela quer dizer.

Written by camila

June 3, 2009 at 12:57 am

A hora da estrela

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a hora da estrela“Tudo no mundo começou com um sim. Uma molécula disse sim a outra molécula e nasceu a vida. Mas antes da pré-história havia a pré-história e havia o nunca e havia o sim. Sempre houve. Não sei o quê, mas sei que o universo jamais começou. ”

Não sei dizer ao certo quantas vezes li e reli esse parágrafo. É o primeiro de A hora da estrela, da Clarice Lispector. Incrível.

A leitura está indo devagar. Não por falta de tempo ou interesse. Mas é que paro para reler duas ou três vezes algumas frases geniais. Como estas:

“As coisas estavam de algum modo tão boas que podiam se tornar muito ruins porque o que amadurece plenamente pode apodrecer. P. 17

“Até que não seria de todo ruim ser vampiro pois bem que lhe iria algum rosado de sangue no amarelado do rosto, ela que não parecia ter sangue a menos viesse um dia a derramá-lo. P. 26

” Tinha olhar de quem tem uma asa ferida. P. 26

“Essa moça não sabia que ela era o que era, assim como um cachorro não sabe que é cachorro. Daí não se sentir infeliz. P. 27

Written by camila

June 1, 2009 at 5:14 pm

Milamor – Suave nocaute

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milamorAlguns romances permitem opiniões indiscutíveis a seu respeito. No caso de Milamor, há três afirmações categóricas que posso fazer.  A primeira: o romance de Livia Garcia-Roza é de uma delicadeza aguda. A segunda: Maria, a protagonista, uma viúva que é levada a reviver o amor e o desejo na virada de seus 60 anos, é uma verdadeira lady. Terceira: o humor fino e a delicadeza da autora não a impedem de nocautear o leitor com uma história de solidão dura e triste.

Com uma estrutura não-linear, Livia narra a vida de Maria, filha de imigrantes alemães, desde sua infância até seus 60 anos. Como diz a própria protagonista, sua história é a reconstrução de uma ruína. Maria foi abandonada pelo marido quando o casal tinha dois filhos pequenos, Vitor, que virou um rapaz reservado e discreto, e Maria Inês, a mais nova, com quem mal consegue dialogar. Levou a vida toda para superar o trauma da separação, viveu tão bem quanto mal. Encontrou Haroldo, seu segundo marido, um homem precioso, que não amava, mas que lhe transmitia paz. Era o mais importante. Maria teve ainda uma infância solitária, com poucos amigos, viu a mãe abortar e o pai morrer. Tem amigas que atravessam os dramas e alegrias da terceira idade, como a transformação do corpo e a vinda dos netos.

Livia escreve como quem cochicha um segredo. Aos poucos, leva o leitor a conhecer os pensamentos mais secretos de sua protagonista. O contato com as dúvidas e opiniões de Maria é uma espécie de revelação silenciosa que a autora nos entrega. Como pensa uma mulher de 60 anos que tem a alma de quem descobre a vida?

A autora apresenta ainda Alencar, um homem distinto e interessante, sobre quem sabemos pouco, mas por quem Maria tem um ataque fulminante de paixão à primeira vista. Surge a pergunta: o que fazer? Com base nos conselhos que recebe de uma de suas amigas, Maria decide viver.

Apenas um detalhe não consegui entender. Quando um livro leva como título o nome de um personagem, subentende-se que este personagem terá um papel fundamental na trama, sendo este o protagonista ou alguém muito próximo a ele. Neste caso, Milamor é uma coadjuvante longe do tema central. É uma vizinha que Maria teve na infância, única amiguinha mencionada, citada duas ou três vezes no livro todo. Embora exista uma passagem linda sobre ela (trecho selecionado), a presença de Milamor não é crucial, e tem uma influência muito pequena na formação da protagonista. Além da poesia do nome, não há nada nesta personagem que justifique dar título à obra. Fico pensando se algo no texto de Livia não me escapou.

Para quem não quiser conhecer detalhes sobre a trama de Milamor, a resenha termina aqui. Um belo livro. Suave, mas, contraditoriamente, com o peso da tristeza. Nos parágrafos abaixo, pequenos spoilers.

Senti falta de dois elementos na costura da história. O primeiro é o desfecho sobre o fim do casamento de Maria Inês, filha da protagonista. Desde o início, a narradora toca no assunto, dizendo que contará os motivos da separação dolorosa mais adiante. Mas essas razões não são apresentadas. Certo, não são fundamentais para a coerência da trama, mas pela insistência com que o tema foi tratado, pensei que conheceríamos os tais motivos. Minha teoria é que Livia teria incluído o esquecimento como característica de sua personagem. Por isso, Maria acaba não comentando este assunto, que, para ela, é importante.

O segundo elemento fica por conta do aparecimento do marido, 30 anos depois de ter abandonado a família. Quando Maria descobre que o marido ligou, seu mundo cai. Pela narrativa, tive a impressão de que aquele telefonema seria uma reviravolta na vida da protagonista e de seus filhos. Eu esperava um choque, um grande conflito. Mas não. Tudo acontece suavemente, como se nada tivesse acontecido. Teria Maria superado, enfim, o trauma da separação e finalizado a reconstrução de sua ruína? Não é o que parece.

Trecho selecionado

“Papai esticou o braço e me entregou um cartão coberto de flor. Não havia um cantinho dele sem flor. E atrás do cartão estava escrito:

‘Um beijo, Dolores.’

Milamor! Me abracei com o cartão e corri para o quarto. Entrando, fechei a porta, me encostei nela e vim escorregando até cair de bunda no chão – olhando para as flores! À noite, pedi emprestado o travesseiro de mamãe. Pus o cartão em cima dele, me deitei e os cobri.” (p. 123)

Você também pode ler essa resenha no Amálgama.

Written by camila

May 22, 2009 at 12:58 pm

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O Mago

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o-magoTerminei de ler O Mago e cinco tópicos me marcaram:

1. Durante toda a biografia, Morais intercala sua narrativa com as impressões de Paulo Coelho, tiradas diretamente das paginas do diario do escritor. Sabemos com muita precisão o que PC sentiu, pensou, imaginou durante diversas passagens de sua vida, dos momentos mais duros aos mais prazerosos. Este formato contribui para a riqueza da biografia, que oferece, ao mesmo tempo, fatos e impressões. No final do livro, contudo, quando Morais começa a relatar o inicio do sucesso de Coelho como escritor, essas impressões simplesmente desaparecem. Não me lembro de ter lido algo que faça referência às sensações e pensamentos de PC quando, finalmente, alcança seu sonho de adolescente – ser um escritor famoso e reconhecido no mundo todo. Não entendi essa quebra de ritmo, mas o fato é que senti uma falta enorme de saber o que Coelho sentiu/pensou ao perceber que seu desejo se realizava.

2. Também gostaria muito de saber em que momento destes últimos 20 anos Paulo Coelho sentiu que seu antigo sonho se concretizava, dado ausente na biografia.

3. Durante os primeiros 40 anos de sua vida, Paulo Coelho alimentou o desejo – sempre frustrado – de ser um escritor famoso. Foi roqueiro, dramaturgo, executivo da indústria fonográfica, mas não era isso que ele queria. Desembestou a escrever somente aos 40, de uma hora para outra, apos percorrer o caminho de Santiago de Compostela. Por isso, também queria saber o que aconteceu, se houve um fator determinante, para que PC passasse a produzir um livro a cada dois anos, a partir dos 40. Ou, de modo inverso, o que segurou sua pluma durante as quatro primeiras décadas de sua vida.

4. Senti falta de uma redação mais enfática da parte de Morais, ao relatar a mudança que O Alquimista causou na vida de PC. Este livro representou uma verdadeira revolução na vida de Coelho, e acho que esta passagem merecia um relato mais detalhado.

5. A biografia traz muitas fotos, copias de documentos, recortes de jornais que ilustram as passagens mais bizarras e interessantes da vida de Paulo Coelho. Gostaria de saber se essas imagens faziam parte do conteúdo do bau de PC que Morais ganhou o direito de revirar, ou se foi resultado de um detalhado trabalho de pesquisa. De todo modo, merecem destaque.

Update:

Vendo os comentários do Fernando Morais no site dele, há uma resposta para minha questão nº3. Morais conta que a visita de Coelho a um campo de concentração na Alemanha, onde PC teve uma epifania, foi um fator decisivo para que começasse a escrever. Esta passagem está no livro. Mas ainda assim queria saber o que o segurou durante 4 décadas em seu sonho de ser escritor famoso e lido mundialmente.

Written by camila

April 27, 2009 at 12:23 am

Profecia

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Lendo O Mago, tenho a impressão de que Fernando Morais costura os fatos e eventos da vida de Paulo Coelho como se este autor estivesse predestinado a ser um escritor famoso.

Fico pensando se Paulo Coelho, ao viver todos aqueles episódios, tinha, além do desejo profundo, a certeza de que seria lido no mundo todo. Isso muito me intriga.

Written by camila

April 16, 2009 at 12:13 pm

O Mago

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Programação Literária para o Ano de 1965

Comprar todos os jornais do Rio, em dia de semana.
Verificar seções literárias, respectivos encarregados e diretores desses jornais. Enviar composições aos encarregados e carta explicativa aos diretores. Entrar em contato telefônico com eles, indagando o dia em que o escrito sai. Informar aos diretores quais são as minhas ambições.
Arranjar pistolões para publicação.
Repetir operação com as revistas.
Saber se algum recebedor dos meus escritos deseja recebê-los periodicamente.
Repetir a operação com as estações de rádio. Sugerir um programa meu ou enviar minhas contribuições aos programas que já existem. Refazer o contato telefônico, indagando que dia será transmitido o que escrevo, se o for.
Procurar o endereço dos grandes escritores e escrever para eles mandando minhas poesias e pedindo críticas, bem como a colocação em jornais que escrevem. Insistir sempre que a carta não for respondida.
Comparecer sempre a noites de autógrafos, conferências, estréias de peças teatrais, procurando conversar com os grandes e fazer-me notado.
Organizar montagens de peças teatrais de minha autoria com convidados pertencentes à roda literária da velha geração, conseguindo com isto o ‘apadrinhamento’.
Procurar entrar em contato com a nova geração escritora, oferecendo coquetéis, comparecendo no lugar que ela frequenta. Continuar com a propaganda interna, comunicando sempre aos colegas minhas vitórias.” p. 130.

Trecho do diário de Paulo Coelho aos 18 anos.

MORAIS, Fernando. O Mago. São Paulo: Editora Planeta, 2008.

Written by camila

April 15, 2009 at 9:41 pm